A ESCULTURA TEM FORMA DE TARTARUGA. Lapidada em cinco centímetros de ágata cor musgo. Textura lisa, como água petrificada. Sabor mineral, como chardonnay de Chablis. O cheiro, um não-cheiro. Rocha musgo, lisa, mineral e inodora.
Refogou cebolas selvagens em shoyu de coco. Ingrediente importante no prato principal. Depois, crème brûlée, que harmoniza com qualquer refeição. O resto se pode imaginar. E tanto faz. Na memória os detalhes são lembrança maculada.
Quando uma tartaruga marinha é esculpida em pedra inodora, no tamanho que for, ela não significa coisa alguma. Que seja tartaruga de água doce ou jabuti que habita borda de mata. Uma pedra, em formato de tartaruga, nada diz.
Nos detalhes, a lembrança volúvel molda a ingênua memória. Foi preciso explicar isso uma centena de vezes. Quando finalmente se cansou, e desistiu. Antes disso, no entanto, você correu como se correr fosse a única possibilidade.
Deixamos a cidade de Nantes, em definitivo, duas semanas depois de Léonore falecer. A mudança foi despachada para La Faute-sur-Mer, na Costa Oeste da França, num caminhão de eixo e rodagem simples. Grande parte do que precisávamos já estava em La Faute. A geladeira, as camas e a janela frontal que, quando aberta, nos permitia ver um mar sem ondas. O mobiliário já compunha a residência desde que a compramos, como casa de praia. Comprei sem que Léonore soubesse e dei a ela como presente de casamento. Talvez não tenha gostado, mas sorriu eloquente e me convenceu do contrário, ao propor que as aberturas em azul santorini dialogavam com o mar tranquilo.
Léonore era poetisa sem poema escrito. Ativista do viver em cidade cosmopolita, e a garota que indicou a direção quando não encontrei o prédio do curso de Letras na Universidade de Nantes. Então, vieram as tardes que passávamos juntos na sessão de livros clássicos da Librairie Bouquinerie du Centre. Depois, a noite em que discutimos sentados em uma mureta do Campus du Terte. Todas as manhãs de amor na casa de número 10, esquina da Paul Valéry com Stendhal. Por fim, foi Léonore quem pensou que poderíamos chamar o menino de Phillipe.
Em uma estrada vicinal e prosaica, nos arredores de La Faute, Léonore perdeu o controle do carro e com ele foi levada ao fundo do Rio Lay. Havia uma ponte estreita. Esqueci de dizer.
Viver é esperar a morte que pode vir tão depressa que Léonore não teve tempo para mudar de ideia. Acomodar-se por inteira na casa de janela frontal, com vista ao mar. Dei a Léonore, sem direito à defesa, a sentença de viver prisioneira na casa que só era minha. Não foram tantos os dias, ainda que pudesse ser nenhum. Eu desperdicei parte de sua vida entre paredes que ela nunca quis chamar de suas. Quando estávamos na casa com aberturas santorini, o olhar de Léonore era um não-olhar.
No dia em que Phillipe levou o olhar em direção à tartaruga, para a pegar e não mais querer largar, senti o desconforto de ser contrariado. Estávamos caminhando pela feira. Ela acontecia aos sábados pela manhã. Ele raramente me acompanhava. Com certa frequência, ainda dormia quando eu voltava com as verduras, legumes e peixe fresco.
Naquela manhã, Phillipe acordou antes de mim. Quando cheguei ao seu quarto, estava chorando sob as cobertas. Eu o tomei nos braços e disse que “está tudo bem”. Era só um pesadelo e tudo estava realmente bem. Não perguntei o que havia sonhado porque essa ideia não me veio à cabeça. De todo modo, pude imaginar o que atormentava seu repouso. A ausência de quem queremos bem é um fardo que ninguém carrega sorrindo. Achei que ele voltaria a dormir, entretanto, quando eu estava saindo do quarto, Philippe me chamou de volta e disse “não quero mais dormir”. Não havendo outra maneira, o levei comigo.
O incômodo surgiu por Philippe não querer devolver a tartaruga. Eu disse que estava cara demais e, além disso, quebraria na primeira queda. Ele começou a chorar. Pedi que parasse, ao que ele chorou ainda mais. Avisei que não o traria outra vez se não me obedecesse. Ele escondeu o choro, mas não a tristeza. Segurei sua mão, retirei a tartaruga e a recoloquei na mesa do velho escultor.
Estávamos finalmente voltando para casa, enquanto falava o quanto sua teimosia era uma atitude feia para um menino de sua idade, e são essas coisas que ensinam pais como eu a dizer, quando escutei uma voz castigada, a meia distância.
“Minha criança!”, ouvi. “Minha criança, tome aqui a tartaruga”. A fala pigarreada.
Ao prostrar um de seus gastos joelhos ao chão, com dificuldade, apoiando-se na outra perna e permanecendo na altura de Phillipe, o velho escultor estendeu a palma aberta e sobre ela a tartaruga. Phillipe buscou meu olhar como quem busca aprovação.
“Ela é importante pra você, criança?”. Philippe permanecia enrijecido, porque não sabia se deveria responder à pergunta do estranho. Eu afirmei que “responda ao senhor, Phillipe” e ele disse “foi ela quem me salvou!”.
A manhã estava calma quando nos olhamos, eu e o velho, sabendo que devíamos perguntar algo mais. Entretanto, somente eu, entre nós, poderia dizer. Desviei o olhar na direção de Philippe, perguntando se “a tartaruga te ajudou no pesadelo?”. A resposta foi simples no gesto afirmativo.
A escultura permanecia sobre a cabeceira de Phillipe.
O garoto já não era menino. Tinha amigos e às vezes não voltava para casa depois da escola. Ele sabia que bastava avisar, mas não avisava e quando chegava, suado e ofegante, eu o deixava sem futebol por alguns dias. Philippe usava, quando resolvia falar, o discurso “você sabe onde eu estava!”, “nada acontece nesse fim de França!” ou “eu queria que mamãe estivesse aqui porque ela não faria o que você faz!”.
A jurisprudência não era favorável e a sentença, a depender do que me respondia, poderia ser mais dura. O dia em que Philippe nos lembrou da ausência de Léonore, porque “eu queria que mamãe estivesse aqui”, como se toda a culpa fosse minha, deixei ele trancado até a manhã do dia seguinte, quando tão somente abri a porta para deixar o café e comunicar que ele faltaria às aulas naquela semana e a raiva era tanta que falei que “está de castigo por um mês”. Bati a porta. Mas não a tranquei.
Em 27 de fevereiro de 2010, em algum momento no início da noite, porque eu estava escrevendo e não o ouvi pular a janela, Philippe fugiu. Um amigo o havia visitado, também sem eu saber, no dia anterior e marcado com ele um futebol noturno de dois. Eu só viria a saber disso mais tarde. Philippe levou a bola porque era uma Adidas e tinha o logo do Lyon. Quando chegou à quadra, não havia ninguém. Era ele, a luz do poste e a noite confusa.
Philippe esperou. O amigo não apareceu. Ele quis voltar, imagino, mas teve medo porque eu o escutaria pular a janela na volta e o colocaria de castigo por mais um mês. Como não voltou, não o escutei.
Primeiro, a queda de energia. Depois, o vento forte. Eu havia ignorado o alerta vermelho de tempestade. Assim como o prefeito e muitos outros haviam ignorado. As razões eram diversas. Alguns, no receio de fazer com que os turistas voassem como gralhas assustadas. Outros, porque nada mais acontecesse de extraordinário em La Faute, desde que Léonore deixou de provar minhas cebolas selvagens e sobremesas clichês.
Acendi algumas velas. Coloquei cada uma em um ponto importante e, por arrogância e orgulho, deixei o quarto de Philippe por último.
Ele não abriu quando bati. Estava trancada. Exigi que “Philippe, abra esta porta!”. Nenhuma resposta. “Abra a porta!”. Silêncio. Arrombei na terceira tentativa e ele não estava e a janela ainda aberta e só depois é que fui perceber a falta da bola.
Corri. Voltei a correr.
Lembro-me perfeitamente de ter gritado seu nome. Quem sabe tenha escutado, mas havia tanto medo em Philippe que ele não respondeu e buscou abrigo na casa abandonada, que ficava no fim da rua.
A tempestade tinha nome de mulher. Toda grande tempestade sempre ganha nome de mulher. Léonore tinha nome de mulher quando nos abandonou. Tão isenta de culpa quanto qualquer tormenta. A culpa quem carregava era um homem e este homem era eu.
O Atlântico avançou sobre o estuário na madrugada do dia 28. A parte mais baixa de La Faute, que ficava ao nível do mar, foi inundada. Das casas, só era possível identificar os telhados. Quando voltei para a nossa, antes ainda do mar avançar, e peguei o que julguei importante antes de entrar no Renault e partir, desejei que “vai ficar tudo bem Philippe, foi só um pesadelo”.
O Atlântico avançou sobre o estuário na madrugada do dia 28. A parte mais baixa de La Faute, que ficava ao nível do mar, foi inundada. Das casas, só era possível identificar os telhados. Quando voltei para a nossa, antes ainda do mar avançar, e peguei o que julguei importante antes de entrar no Renault e partir, desejei que “vai ficar tudo bem Philippe, foi só um pesadelo”.
“On va se courir d'ici sans payer l'addition”. Todos queriam correr para não pagar a conta. Entretanto, não seria possível correr e seguir correndo por toda a vida. A conta um dia teria de ser paga.
Começaram a encontrar os corpos pela manhã. Eram quase todos velhos. Senhores e senhoras que fizeram, ao longo da vida, escolhas ruins e tiveram tempo de voltar atrás.
Não demorou muito até encontrarem o corpo de uma menina. Decretei a absoluta impossibilidade de um dia crer em algo divino, que nos possa resgatar quando a mão do homem falha.
Outro corpo. A descrição de um adolescente. Um garoto encontrado boiando dentro da casa abandonada, ao fim da rua. Não deram a ele um nome e ainda assim gritei que “não!”. Foi Léonore quem disse Phillipe pela primeira vez. Mas fui eu quem o chamou pela última.
Colei a escultura sobre a cabeceira de concreto.
E corri.
*Conto publicado em 2019 na antologia "Nem tudo foi dito", obra organizada pelo doutor em Teoria da Literatura Douglas Ceccagno.
*Conto publicado em 2019 na antologia "Nem tudo foi dito", obra organizada pelo doutor em Teoria da Literatura Douglas Ceccagno.
