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O buraco [conto]


   Quando chegou a notícia da morte da Ana, o Astor Heck começou a cavar. Isso lembro bem. Quando o tal áudio de dezessete segundos foi mandado no grupo, ninguém sabia direito. No início era só a voz de um homem, mas quando se anunciou médico, e ele falava feito médico, todo mundo levou a sério. O tal doutor, se é que era, porque onde já se viu anunciar morte desse jeito, dava o anúncio de falecimento de uma jovem no hospital Santa Cruz. Não dizia a causa, mas naqueles dias todos pareciam saber que só poderia ser coisa do coronavírus.

   Acho que foi o Schultz quem sugeriu o nome Ana. O Astor tinha uma filha com esse nome e ela trabalhava de enfermeira no hospital, só que o infeliz do Schultz não disse Ana Klock, e poderia ser Ana Heck.

   Eu nem sabia que o Astor Heck tava no grupo “Barbeiragem Rio dos Bugre”. Ele apareceu não sei de onde e a mensagem dele dizia “Ana Heck?”, e não, não era a Ana do Astor, só que a demora do Schultz em responder me deu nos nervos. Quando o Schultz desfez o mal dito, já era tarde. Até hoje não sei se o Astor leu a mensagem ou se pegou a enxada antes do esclarecido.

   Acho que os Malmann talvez tenham visto. Tô falando do Astor cavando. Não sei, porque não perguntei e nem vou perguntar. A verdade é que o terreno deles também faz divisa com o terreno do Astor. De um lado os Malmaan, do outro eu, o Astor no meio. Lembro quando o Enio Malmann começou a erguer um muro de tijolo que nunca ganhou um reboco decente. O muro é tão alto que parece que o Enio Malmann queria mandar um recado pro Astor. Minha divisa também é murada, mas já era assim quando me mudei e não sei se foi coisa do Astor ou do antigo dono, mas de qualquer feita o meu muro é bem menor. O caso é que o que tenho de dizer digo na fuça e quem manda recado é locutor.

   A verdade é que a Isabel Malmann tinha o hábito de trepar na goiabeira pra xingar o cusco do Astor. O guaipeca desatava a latir assim que os Malmann terminavam de almoçar e eles tinham a mania de dormir depois do almoço. Eu não sei como aquela gente pode almoçar às onze da manhã e o cusco latia porque tava com fome. Se os Malmann fossem gente normal, almoçavam ao meio-dia e dormiam à uma da tarde, que é a hora em que o cusco tava com o bucho cheio e não latia nem pros gatos que iam cagar na horta do Astor. E sei dessas coisas não por conta de fofocas, que isso não faço. Sei porque vejo tudo da janela da cozinha.

  Agora, se a Isabel Malmann resolveu trepar na goiabeira depois da morte da Ana Klock, então ela viu. E não posso atestar se viu ou não, mas ela poderia ter visto depois do almoço, no começo da manhã, depois de acender a luz dos fundos, porque já era noite e o Astor Heck ainda tava lá, cavando o buraco dele.

   No começo era um buraquinho que não dava nem pra criação de girino. Foi quando a lâmina da enxada chapou numa pedra e eu vi a faísca pela janela da cozinha, que começei a prestar mais atenção. Podia ser uma cova pra enterrar a sobra da comida que o cusco não comia, mas ele sempre lambia o prato e os beiços e teria de ser um buraco pra outra coisa. Só que eu tinha mais o que fazer e de qualquer modo já não dava fala com ele fazia tempo.

   O Astor tinha uma horta bem produtiva. Nem parecia cuidada por gente sem estudo.  Tirando os ossos que o cusco gostava de esconder no canteiro das abobrinhas, lembrava aquelas hortas do calendário da Agropecuária Wickert. Talvez por conta do adubo que os gatos enterravam ali. Querendo ajudar, dei pro Astor a ideia de ir vender seus plantios na feira ecológica de Santa Cruz.

   “Dá uns troco bom, Astor”
   “É, deve dá”
   “Posso fazer as vendas e a minha parte nos ganhos a gente pode combina”
   “Quem sabe, quem sabe”

   O Astor nunca mais tocou no assunto e ele é que sabia. Também não me meti mais e não ia ser uma faísca de enxada motivo de conversa.

  Agora todo mundo quer dizer que desconfiou. Do quê? Do buraco, tchê! Vi o carro da Folha de Santa Cruz na frente dos Malmann hoje cedo e aposto que o Enio Malmann disse que viu. Só que até a Isabel Malmann sossegou o faixo faz tempo porque o Astor tava sempre lá e o cusco parou de latir. Não, ninguém viu coisa nenhuma. Só eu que vi.

   Quando o buraco ficou, de uma hora pra outra, do tamanho da van escolar do Silveira, eu me assustei. E anota isso que é pra não dizerem que sou cego das vistas.

   “Bah, Astor. Vai abrir uma filial do aterro aí?”

   Ele nem olhou, tu acredita? O Astor Heck não tirou o olho do buraco e mal dava de ver o corpo lá dentro, só o boné da agropecuária cobrindo o cocuruto. Fora do buraco tinha uma pilha de terra recém-feita. Foi aí que me preocupei, entrei em casa e continuei espiando da janela da cozinha. A minha cozinha, depois eu mostro, vai mais perto do muro e dá pra ver melhor que da porta dos fundos.

   O sistema do Astor era encher o balde e subir a escada que ele escavou na própria terra. Aí ele despejava a terra numa pilha e voltava pro buraco, que era um retângulo fundo e eu não via mais nem o olho, nem o boné, só a enxada quando subia alta.

   No dia que fiz a piada do aterro e o Astor nem me olhou, jurei que nunca mais ia dar fala. Eu acho que se um homem não sabe entender uma graça, é melhor deixar ele sozinho.

   Uns dias depois, a pilha de terra já dava do tamanho daquelas pirâmides, é assim que fala? aquelas que a falecida Ruth de Souza e Melo explicava no ginasial do extinto Pedro Metzler.

   O nome Rio do Bugres apareceu na notícia estadual do meio-dia. Acho que o Klock faleceu de manhã cedo e a mulher no meio da tarde. Uma tragédia. Um não vivia sem o outro. Eram mais grudados que carrapato em culhão de touro velho. Mas aqui em Rio dos Bugres, e é “Bugres” e não “Bugre”, como tá no grupo de mensagens, a gente nem podia reclamar. Em Santa Cruz tinha não sei quantos mil casos. No Rio Grande do Sul tinha passado de cinco mil mortos. Por isso que agora todo mundo quer dizer que sabia da gravidade. Esse povo acha que tenho memória curta. Eu só saía vez ou outra, quando era pra repor feijão, erva ou congelar mais uns quilos de guisado de rês. O Eliomar, que é o dono da venda, disse que eu tava sumido.

   “Eu, sumido? E tu não escutou a entrevista do doutor Weiss?”. Eu sabia que todo mundo em Rio dos Bugres tinha escutado.
   “Escutá eu escutei. Só que o doutor não disse pro povo parar de vir na venda. E todo mundo ainda vem e até quem não vinha tá vindo e só tu que não vejo mais”.
    “Tchê, eu não tô aqui?”
   “Que tá, tá. Só que antes vinha todo dia toma as cachaça”. O Eliomar me deu um safanão no ombro e confirmei que ele não tinha prestado atenção no doutor. O povo queria era encher os carrinhos. Na hora de colocar a máscara, todo mundo se fazia de mula surda. Eu não usava porque não queria tirar de quem precisava mais que eu. Quando veio a obrigação, encomendei sete e depois mais três. Depois do safanão do Eliomar, só voltei na venda mais uma vez e enchi o carrinho e não saí mais de casa.

   Era isso, então. O Eliomar queria ver o povo encher o cu de trago, e desculpa a grosseria, mas a gente aqui fala assim mesmo. O Schultz mandando aqueles vídeos que parei de ver. Os Malmann na hora de reclamar do cusco se agarravam na goiabeira e gritavam feito macaco bugio, mas quando era pra ver que o Astor não tava bem… Agora querem dizer que viram algo estranho. E os Klock, coitados, que Deus os tenha.

   O buraco virou uma vala e depois um poço e no fim era do tamanho da garagem da van do Silveira. Quando o Astor começou a descer com as primeiras tábuas de eucalipto, pensei que ele tinha enlouquecido de vez. O Astor ia fazer o piso de madeira, só que assim? Direto na terra? Dentro de um valão, que se tivesse janela não ia entrar uma miséria de sol? Isso não é coisa que o Astor Heck faria. O homem tava fora da razão. Se eu acho que ele sabia do perigo? Olha, quanta coisa a gente não faz sabendo que tá pregando o caixão? O povo empoleirado e agarrado nos carrinhos da venda não tavam nem aí, só que eu acho que ninguém vai perguntar isso praquela gente. Só o pobre do Astor que vão dizer que tava sem juízo.

   Como eu disse, ele tava mesmo, só que igual a todo mundo. O Astor pregou cada uma das tábuas do piso e isso eu não posso dizer que vi, mas dava pra saber. Achei que ele ia dar uma folga quando terminasse o piso, mas no mesmo dia já desceu com as ripas de costaneira e começou a martelar as paredes e isso eu vi bem. Era um cavalo xucro, não teria me escutado mesmo se eu tivesse dito. De tardinha, fiz um mate novo e voltei pra janela. O cavalo xucro e cabeçudo ainda tava lá. Tinha puxado uma extensão elétrica e na ponta uma lâmpada improvisada. A luz era forte e amarela e dentro do buraco parecia que o Astor Heck tinha aberto uma passagem pro inferno. Que Deus me perdoe dizer uma coisa dessas, mas foi o que pensei. Quando o Astor começou a descer, parecia que ele tava descalço, mas já era noite e não posso afirmar que vi bem.
 
   Naquele dia aguentei o quanto deu. Não queria deixar o Astor sozinho. O mate lavou,  coloquei erva nova e lavou de novo. O Astor tava terminando a última parede, pelo que lembro, porque eu já tava surrado de sono e só limpei a cuia e fui deitar tão lascado que acho que pulei o Pai Nosso. A luz de um raio entrou pelas frestas, depois escutei o estrondo e apaguei.

   Acho que choveu a noite toda. Nas duas vezes que levantei pra mijar, tava chovendo canivete. Fora isso, eu dormi feito o menino Jesus na manjedoura. Sonhei que eu tava no bar da venda do Eliomar, só que não era bem como é de verdade, e tava lá o velho Klock, o Shultz, o Malmann, o Silveira, acho que até o falecido Melo tava lá, e quando o Eliomar resolveu sentar, todo mundo falou alto e ao mesmo tempo porque onde já se viu dono de bar ficar sentado? Só que o Eliomar tava todo na graça e nisso apareceu o Astor todo sujo de barro trazendo duas garrafas de Polar em cada mão. O povo todo gritou feito quero-quero louco de faceiro, menos eu porque estranhei o barro lamacento preso na roupa e nos braços e cabeça do Astor Heck.

   Acordei no meio da manhã. Parecia um domingo de inverno. Tudo quieto. Só que era terça, o outono tinha só dois meses e não percebi a falta que fazia a enxada e o martelo. Cortei uma fatia de pão, passei a chimia e preparei o mate. A janela tava toda embaçada e não dava pra ver. Passei a mão, só que tava embaçada pelo lado de fora. Deixei como tava e fui me sentar na área da frente, que é coberta e só chove dentro quando tem muito vento. Tomei um espanto porque não é comum ver tanta cerração nessa época, ainda mais com chuva. A temperatura caiu e o vento minuano deu as caras. Voltei pensando em pegar um moletom, mas antes aproveitei pra dar uma espiada no Astor.

   Abri a porta dos fundos, que não é tão boa de vista como a janela da cozinha, mas é melhor ver menos do que não ver nada. Tava uma cerração pesada e apelei pros ouvidos. Como eu disse, tava tudo mais quieto que cemitério abandonado. O Astor Heck tinha colocado a cabeça no lugar e devia tá atirado no sofá da sala. Desde que a Ana foi morar em Santa Cruz e a mulher dele se cansou e foi embora não sei onde, o Astor dormia no sofá.

   Eu tava ali nos fundos com a porta aberta e começou a entrar chuva e molhar o chão e o mate. Fechei a porta. Tava tudo um silêncio. Reparei que nem o cusco latia. O Astor não deixava ele ficar dentro de casa e só agora sei onde tava o pobre bicho. Voltei pra área e o frio tava lá e o moletom eu esqueci de pegar. Eu teria voltado se não tivesse visto o que vi.

   Não sei dizer se foi a Ana Heck quem chamou a brigada militar. Talvez tenha sido mesmo a ex-mulher, porque a Ana teria ido ver. É por isso que eu nem gosto de falar o nome daquela mulher. Abandonar o homem daquele jeito, isso não é coisa de cristão decente.

   O brigadiano já tava batendo na porta como se quisesse derrubar. Acho que antes ele tocou a campainha, só que ela não funcionava. O enxerido do Enio Malmann e a bocuda da Isabel Malmann tavam lá, dividindo o guarda-chuva e falando qualquer coisa. Até parece que eles já sabiam que a brigada ia chegar.

   “Como vai a quarentena, seu Enio?”. Eu queria provocar e gritei isso.
  
  O Enio Malmann olhou pro brigadiano como se quisesse dizer que se o homem da lei não via problema no amontoado, quem era eu pra falar?

   “O vizinho deve tá dormindo.”. Achei que era bom avisar a autoridade.
   “O senhor o teria visto nos últimos dias?”
   “Olha, às vezes a gente vê. Eu não tô saindo, sabe como é, então não sei. E também não fico espiando os vizinhos pelo muro”, a Isabel Malmann apertou o braço do Enio Malmann feito sucuri no pescoço da capivara, “só que ontem à noite eu vi o vizinho trabalhando nos fundos de casa até tarde”. 

   O brigadiano deve ter pensado que fez um bom trabalho, mandou os Malmann pra casa e eles foram. Só que pareciam contrariados e enquanto o Enio Malmann segurava o guarda-chuva e a Isabel Malmann reclamava do espaço, ele parece ter dito que sabia que não ia adiantar ligar. Achei estranho. É coisa que precisa se esclarecer.

   A chuva não dava trégua e até os sapos tavam boiando morto de tanta água. O caso é que três dias depois fui eu quem chamou a brigada, porque ninguém dorme o dia todo e nem abandona o trabalho desse jeito. Fiz o mate e fiquei esperando. O mesmo brigadiano apareceu, mas antes de bater no Astor saiu da viatura e veio direto na minha área. Ele é novo no serviço e acho que não vai vingar em Rio dos Bugres.

  “Boa tarde, amigo.”. O brigadiano tem um jeito estranho de falar.
   “Buenas, autoridade”
   “Tem visto o seu vizinho?”
  “Olha, desde que o senhor bateu ali eu comecei a reparar e já vai três dias que não vejo ninguém”

   A água escorria na cara do brigadiano e ele voltou até a viatura e vestiu a capa de chuva. Tocou a campainha do Astor e eu já tinha dito que não funcionava. Bateu duas ou três vezes, esses detalhes eu não lembro, mas nada do Astor. O soldado arrombou a porta com um chute de coturno e sumiu lá dentro. Não sei se é certo, mas foi o que ele fez.

   Servi um mate e atravessei a casa de ponta a ponta. No caminho aproveitei para pegar um pano seco. Abri a tranca e desci o degrau. Estiquei o pano lá no alto e sequei a janela. Não tava mais embaçada, mas tinha aquele amontoado de gotas. Eu queria ver bem.

   O terreno do Astor tava lá. A horta toda encharcada, acho que nada ali se salvava. O Astor Heck parecia ter desistido da obra e colocado a terra de volta. O buraco tinha desaparecido. Só que eu vi o cabo da extensão e ele ia pra debaixo da terra. Pensei na última vez que vi o Astor. Foi na noite em que um raio entrou pelas frestas e poderia ter caído na antena da minha casa, na goiabeira dos Malmann ou no buraco em que o Astor tava metido. Larguei o mate na pia, mas calculei mal e ele despencou. A cuia ficou estirada no piso, trincada no pescoço, e a erva cobria a bomba que se fosse o corpo do Astor Heck taria soterrado pela lama, dentro do buraco que ele mesmo cavou pensando em construir um abrigo de emergência. 

   Mas tchê! Vai ter foto minha na matéria ou só a prosa?